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Da sarjeta a Harvard

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Liz morava no Bronx, filha de pais viciados em heroína. Ambos morreram de Aids.

Aos 15 anos, pouco depois da morte da mãe e da transferência do pai para um abrigo de homens, Liz foi morar na rua.

Em junho de 2009 ela se formou em Harvard.

A história de Liz já foi comprada pela televisão e está contada em livro, seminários, programas de rádio e tevê.

Liz não é a primeira pobre novaiorquina que vai da sarjeta para Harvard, mas são casos tão raros que merecem atenção, especialmente num país socialmente cada vez mais desigual, com as classes média e baixa estagnadas.

Liz é um modelo para quem quer cortar a ajuda aos pobres e drogados, como os republicanos, e um modelo para os democratas, que querem reforçar os programas sociais.

A primeira lembrança de Liz de ver os pais com drogas foi aos 3 ou 4 anos.

Da sala via os dois na cozinha, num ritual diário que envolvia fósforo, colher, injeção, fios. Depois, os olhos bonitos e arregalados da mãe, a euforia do pai e a prostração de ambos, no sofá, gastos.

Liz e Lisa, a irmã mais velha, com frequência encontravam a geladeira vazia. Ela se lembra quando dividiram um tubo de dentifrício e um batom de proteção de lábios com sabor de cereja.

Mas as duas não se sentiam maltratadas nem mal amadas pelos pais. Liz se lembra, em especial, do carinho da mãe.

Depois da morte dela, quando foi morar na rua, o Bronx estava bem mais seguro que nas décadas de 70 e 80, mas era preciso saber onde encontrar uma escada, um banco de praça seguro, ou uma calçada para passar a noite.

O título de seu livro biográfico, Breaking Night, é uma gíria entre os sem-teto e significa o momento que surge o primeiro raio de sol. Era hora de sair do prédio, do banheiro ou sofá dos amigos e amigas antes que os pais deles acordassem. Não gostavam que seus filhos desssem abrigo a filhos de drogados.

O pai de Liz e Lisa era voraz nas drogas e nos livros. Roubou dezenas deles da Biblioteca Pública de Nova York, lia e incentivava a leitura das filhas.

Quando morreu em 2006, aos cuidados de Liz que tinha suspendido a matrícula em Harvard, disse que a leitura tinha sido a contribuição dele para as filhas.

Talvez tenha vindo dele a disposição das duas de estudar mesmo nos momentos mais miseráveis.

Liz entrou na Humanities Preparation Academy, no bairro do Chelsea, em Manhattan e em apenas dois anos anos terminou o curso secundário.

Nesta escola foi descoberta pelo New York Times que deu a ela uma bolsa, provavelmente o grande passo para a entrada em Harvard, onde, de 23 mil candidatos super qualificados, brilhantes, afluentes ou vindos da aristocracia acadêmica americana, a cada ano, só entram 2 mil.

A história de Liz no jornal não resolveu mas diminuiu o problema de dinheiro e o drama dela despertou outros impulsos.

Na saída da escola foi abordada por uma mulher que se desculpou por não poder ajudar com dinheiro porque era pobre, mas se ofereceu para lavar a roupa dela toda semana, e durante seis meses nunca faltou.

Semana passada Liz estava no programa “Talk of the Nation”, da NPR, a rádio pública. Em menos de uma hora o programa se tornou um confessionário. Filhos que tinham passado por situações parecidas, pais ou mães, alcoólatras, drogados, socialmente inúteis.

Blake, o irmão e três irmãs foram criados pela mãe viciada em cocaína que acabou perdendo tudo que tinha.

Blake foi morar no velho carro, um Lumina 95 e saiu do banco de trás para a Washington University, uma das melhores do país, com uma bolsa generosa.

Lisa, a irmã mais velha de Liz, também terminou o curso universitário e é professora de crianças autistas.

Quase todas estas pessoas acham que venceram porque tiveram o que a maioria dos filhos fracassados não têm ou tiveram: amor materno.

O do pai também pode ser salvador mas são casos mais raros.

A mãe, por mais perdida, drogada, enlouquecida, é capaz de amar e de salvar os filhos.

Liz Murray é parte desta minoria de sobreviventes mas acha que amor materno, ou paterno, não são as únicas salvações.

Da iniciativa do Times à mulher que lavava as roupas dela, qualquer adulto ou organização pode salvar uma crianca ou adolescente. Esta é a ação da “Manifest Living”, um movimento criado por ela para transformar adultos indiferentes em protetores engajados.

 

Lucas Mendes

De Nova York para a BBC Brasil

 

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