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A Vida como ela deveria ser.

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Um olhar apaixonado pela vida e pelo cotidiano de pessoas simples moveu por décadas um dos maiores fotógrafos do Século XX, que ao lado de Henri Cartier-Bresson, foi um dos pioneiros de fotojornalismo. Verdadeiro humanista e amante das ruas, Robert Doisneau traçou o retrato da sua França como ela deveria ser. Sem interesse em documentar a dor e o sofrimento, a humanidade a seus olhos é digna, repleta de respeito e beleza. Foi assim que eternizou crianças, casais apaixonados, trabalhadores e artistas.

Nascido em 1912 em Gentilly, interior da França, Doisneau estudou arte desde a adolescência e formou-se litografista. Seu interesse em fotografia veio em 1929 e o trabalho como profissional começou anos depois numa fábrica da Renault, em que produzia fotos publicitárias e industriais. Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, juntou-se ao exército francês e trabalhou com a resistência até 1945, levando paralelamente a carreira de fotógrafo na produção de cartões postais. Apenas após a guerra, pôde enfim dedicar-se a fotografar seus passeios pelas ruas de Paris e esse olhar documental o levou à Vogue, numa tentativa da revista de testar novos caminhos para a fotografia de moda. Este desvio durou apenas 3 anos e então Doisneau voltou a dedicar-se com exclusividade às ruas e ao trabalho free-lance.

Percorrendo as ruas de Paris com sua Leica, ele parecia pouco preocupado com a ciência de fotografar, mas carregado pela emoção e pela sensibilidade de cada momento registrado. Em seu livro “Trois Secondes d’Éternité”, lançado em 1979, Doisneau afirma colocar toda sua confiança na intuição, que contribui muito mais que o pensamento racional, e diz que é preciso deixar-se levar, envolver-se no encantamento até que se torne uma atmosfera familiar.

Tal encantamento é claramente encontrado na liberdade e na ingenuidade das inúmeras crianças por ele retratadas. Doisneau as capturava andando e brincando nas ruas, muitas vezes borradas pelo movimento e pela baixa velocidade do obturador, talvez para eternizar o que realmente via no instante do clique. É difícil pensar que suas escolhas pudessem ser puramente estéticas, pois apesar de suas imagens serem verdadeiras obras de arte, com enquadramentos e composições irretocáveis, seu foco é sempre a situação e as pessoas que o tocam.

Como fotógrafo documental, evitava a orientação do sujeito retratado, porém como profissional que realizava reportagens para diversas revistas, Doisneau revertia a situação a seu favor. Foi assim que criou, em 1950, o mais famoso trabalho de sua carreira, o “Beijo do Hotel de Ville”, para a revista Life. A foto tornou-se ícone do amor ao redor do mundo e, durante mais de 40 anos, acreditava-se ser um registro casual do afeto espontâneo de um casal apaixonado nas ruas de Paris. Apenas em 1992 Doisneau revelou que viu o casal beijando-se na rua e os abordou para realizar a fotografia, recriando então a cena. Aparentemente contraditória, a verdadeira história por trás do beijo é mais um exemplo da ética de Doisneau, que afirmou ser incapaz de fotografar um casal em tal situação sem o consentimento prévio dos dois, pois amantes que se beijam na rua dessa forma são raramente legítimos.

Doisneau morreu em 1994 e deixou um acervo de cerca de 400 mil negativos, mas sua herança é bem maior. Através de seus olhos, vemos um mundo otimista, que acredita na humanidade. O legado de um fotógrafo não se resume às imagens que produziu, abrange as ideias que abraçou e reportou durante toda a sua vida. Robert Doisneau nos deixou uma lição, que, assim como suas melhores obras, jamais envelhecerá: é preciso amar as pessoas para capturar seu espírito.

*Texto apresentado na disciplina Teoria e Crítica Fotográfica, com o Prof. Dr. José Afonso Jr., no curso de Pós-Graduação em Jornalismo e Crítica Cultural.

 

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